Atividades sociais

Irmã Elisabete

Biografia

Elisabete da Trindade foi uma jovem carmelita descalça, cheia de vida e de entusiasmo. Ao longo dos seus 26 anos de vida, soube vivenciar o amor de Jesus que habita no coração humano.

Nasceu em 18 de julho de 1880, em um acampamento militar, no campo de Avor, perto de Bourges, França, pois seu pai era capitão do exército francês. No seu nascimento os dois médicos presentes haviam advertido que seria necessário fazer o sacrifício da criança. Sua mãe sofreu muito durante 36 horas. Mas, no final da Missa que era celebrada em suas intenções, a pequena Elisabete vem ao mundo. A criança tem boa saúde, “era muito bonita e muito esperta”, se recordará a senhora Catez.

Desde muito cedo Elisabete mostrou ser uma criança turbulenta, muito viva, faladora, precoce e de temperamento por vezes colérico. Sua mãe conta: “Quando tinha apenas 1 ano, já se manifestava sua natureza ardente e colérica”. Sua irmã chega mesmo a dizer que era tão violenta que os familiares a ameaçavam enviar para uma casa de correção. No entanto, sua mãe, atenta, soube modelar a fúria de Elisabete e fez sobressair nela a sua ternura. Elisabete compreendia quando não tinha se portado bem, e, meditando fazia exame de consciência e corrigia-se. Ainda quando criança, sua família mudou-se para a cidade de Dijon. Com apenas 7 anos perdeu o pai tão querido que vem a falecer no mesmo ano que o seu avô.

Sem ser rica, sua mãe, a senhora Catez possuía uma comodidade que foi suficiente para assegurar a formação de suas filhas. Por volta dos 7 anos, Elisabete recebe as primeiras aulas particulares de francês.

Desde os oito anos estudou música no Conservatório de Dijon. Todos os dias, passava horas ao piano. Participou de muitos concertos organizados na cidade. Seu talento precoce mereceu elogios nos jornais locais. No dia 24 de julho de 1893, apesar da sua pouca idade, obteve o primeiro prêmio de piano do Conservatório.

Em sua primeira comunhão, em 1891, aos 10 anos, chora de alegria ao sair da igreja, diz: “Não tenho fome, Jesus saciou-me”...

À tarde ela vai visitar a Madre Priora do Carmelo. Maria de Jesus explica-lhe o significado de seu nome hebreu: “Elisabete é a casa de Deus”. A menina está e permanecerá profundamente impressionada. Ela experimentou tão bem esta manhã que Deus nela habita!

Estava perto dos  catorze anos de idade quando se sentiu  irresistivelmente atraída por Jesus. Escreve futuramente: “Ia fazer catorze anos, quando um dia, durante uma ação de graças, me senti irresistivelmente inspirada a escolher Jesus como único esposo e imediatamente a Ele me liguei por um voto de virgindade. Não nos dissemos nada, mas entregamo-nos um ao outro de tal maneira que a resolução de lhe pertencer totalmente tornou-se em mim ainda mais definitiva”.  Aos 18 anos sua mãe pretendeu casá-la  com esplêndido noivo, mais Elisabete responde: “ o meu coração já não está livre, dei-o ao Rei do reis, já dele não posso dispor”. O desgosto da mãe foi grande.  Mas foi mais  amargo quando soube que Elisabete queria entrar para o Carmelo, onde tantas vezes  tinham entrado e que ficava ali apenas 200 metros de sua casa. Entre lágrimas a  mãe apenas consentiria na entrada do filha no Carmelo quando essa alcançasse a maioridade, aos 21 anos de idade.   

Certo dia Elisabete declara: “ Se soubésseis tudo o que sofro ao ver minha querida mãe desolada ao aproximarem-se os meus vinte e um anos.... Ela sofre várias influências: um dia diz-me uma coisa, no dia seguinte é o contrário.... Como é doloroso fazer sofrer aqueles que amamos, mas é por Ele! Se Ele não me ajudasse, em certos momentos pergunto o que seria de mim, mas Ele está comigo, e com Ele tudo posso”. E escreve ainda:

 

Oh !

Depressa responderei ao teu chamamento,

dentro em pouco serei toda sua,

dentro em breve direi adeus a tudo o que amo.

Ah !, o sacrifício já esta feito,  o meu coração está desligado

de tudo, nada lhe custa fazer por Ti.

Mas há um sacrifício doloroso ao meu coração,

um sacrifício para o qual Te peço para me ajudares: é a minha mãe, a minha irmã.

Estou feliz por ter um verdadeiro sacrifício para Te oferecer.

Porque Tu, cumulaste-me de presentes e eu, que tenho para te trazer?

Tão pouca coisa e esse pouco, é ainda um dos teus dons.

Ah ! Pelo menos ofereço-te um coração  que a nada mais

aspira senão a partilhar os Teus sofrimentos, um coração que só

vive para Ti, que só te quer a Ti que há tantos anos só aspira a ser Teu...

Entrada no Carmelo

No dia 2 de agosto de 1901, Elisabete entra no Carmelo que pela sua solidão e beleza atrai irresistivelmente. A partir de então o seu nome
será Irmã Elisabete da Santíssima Trindade. “Gosto tanto do mistério
da Santíssima Trindade! É um abismo no qual me perco.
Deus em mim, eu n´Ele. É o grande sonho da minha vida.
Para uma carmelita viver é estar em comunhão com Deus
desde a manhã até à noite, e desde a noite até de manhã.
Se Deus não enchesse as nossas celas e os nossos claustros,
oh!, como tudo seria vazio ! Mas é Ele que enche toda a
nossa vida fazendo dela um céu antecipado”.

 

A irmã Elisabete tomou o hábito a 8 de Dezembro de 1901. Iniciada a vida de noviciado a paz e a felicidade mudou-se em noite escura. No decurso do ano de 1902, o sofrimento interior visita Elisabete. Está numa grande neblina. Há dias de confusão e, em certas horas a angústia e a tempestade. Mas ela ama a Jesus e entrega-se a Ele cegamente.  Foi o momento da purificação interior. Os seus escritos relatam a felicidade de acreditar no seu amor e de O seguir. A sua noite ilumina-se com as claridades da fé e da confiança: “O abandono, eis o que nos entrega a Deus. Sou muito nova, mas parece-me que algumas vezes sofri bastante. Oh! Então quando tudo se obscurecia, quando o presente era tão doloroso e o futuro me aparecia ainda mais sombrio, fechava os olhos e abandonava-me como uma  criança nos braços desse Pai que está nos céus...”

 

Lendo São Paulo descobriu que ela devia ser o “louvor da glória de Deus”. Esta ideia e esta vocação serão o rumo de Elisabete da Santíssima Trindade:

 

“‘Louvor e glória’ é uma alma que mora em Deus e o ama com amor puro, amante do silêncio qual lira mantida sobre o toque misterioso do Espírito Santo, fazendo sair de si harmonias divinas”.

“‘Louvor e glória’ é  uma alma que contempla a Deus em fé simples e permanece como um eco perene do eterno cântico celeste. O segredo da felicidade é não se preocupar consigo mesmo, é negar-se em todo o momento”.

 

Elisabete gostava de ver o sol penetrar nos claustros e recordar aquela comparação de Santa Teresa: “alma é como um cristal no qual se
reflete a Divindade
. Gosto tanto desta comparação e, quando vejo o sol invadir os nossos claustros com os seus raios, penso que Deus invade a alma que O procura!”  A nossa irmã deixou-nos escrito acerca do tempo depois da sua profissão: “ cada dia da minha vida de esposa me parece mais belo, mais luminosos, mais envolto em paz e amor”.

Dois dias antes da sua morte disse ao seu médico: “é provável
que dentro de dois dias esteja no seio da Santíssima Trindade.
É a Virgem Maria, aquele ser tão luminoso, tão puro, com a pureza do mesmo Deus, quem me levará pela mão e me introduzirá no céu tão deslumbrante”.

Todo sofrimento será então vivenciado por Elisabete numa perspectiva relacional. Ela carrega a sua Cruz em obediência a Jesus que convida seus discípulos a “segui-lo”(Mt 8, 34). Eu não posso dizer que amo o sofrimento em si mesmo, mas o amo porque ele me faz conforme Àquele que é meu Esposo e meu Amor.(p.27).

Antes do fim de março de 1906, Elisabete entra na enfermaria do Carmelo. O enfraquecimento progressivo dos últimos meses a confina num esgotamento total. Alimenta-se sempre com maior dificuldade. (p.28).

 

Provavelmente seguida de uma tuberculose, Elisabete foi atingida pela doença de Addison, então incurável, afecção crônica das glândulas supra-renais que não produziram mais as substâncias necessárias para o metabolismo. Donde resulta a astenia característica, perturbação gastrointestinal, náuseas, hipotensão arterial, (quade) impossibilidade de se alimentar, emagrecimento, tudo isto conduz a um esgotamento físico total e à morte. Sobre este estado geral se inserem com Elisabete outras complicações, como ulcerações interiores, fortes dores de cabeça, insônias…

 

Alguns dias antes de sua morte, Elisabete disse às sua Irmãs esta frase tão bela e que ficou célebre: “Tudo passa! No declinar da vida só o amor nos resta...”   

 

No final de outubro de 1906 Elisabete escreve:

 

No declinar da vida só resta o amor

À luz da eternidade, a alma vê as coisas na sua verdadeira imagem;

Oh, como tudo é inútil, o que não foi feito por Deus e com Deus!

Peço-vos, oh, marcai tudo com o selo do amor!

Só isso resta.

Porque a vida é uma coisa muito séria: cada minuto nos é dado

para nos “enraizarmos” mais em Deus, segundo a expressão de

São Paulo, para que a semelhança com o nosso divino Modelo seja

Mais viva, a união mais íntima.

Mas para realizar esse plano que é do próprio Deus,

eis o segredo:  esquecermo-nos de nós, abandonarmo-nos, não

nos importarmos conosco, olhar o Mestre, olhar apenas para Ele,

receber igualmente como vindos diretamente do seu amor,

a alegria ou a dor; Isso estabelece a alma numas regiões tão serenas!...

Deixo-vos a minha fé na presença de Deus, do Deus todo amor

que habita nas almas.

Confio-vo-lo: é essa intimidade com Ele “cá dentro”,

que foi o belo sol irradiante da minha vida, sendo como que um

Céu antecipado; é o que me ajuda hoje no sofrimento.

Não tenho medo da minha fraqueza, é ela que me dá confiança,

porque o Forte está em mim e a sua virtude é poderosa;

ela opera, diz o Apóstolo, além do que podemos esperar !

 

A sua última noite foi terrivelmente penosa, pois às suas horríveis dores juntou-se-lhe também a falta de ar, mas ao amanhecer Elisabete exclamou: “vou para a Luz, para o Amor, para a Vida”, e adormeceu para sempre, com apenas 26 anos de idade. Era a madrugada do dia 9 de novembro de 1906.

Parece-me que  no Céu

a minha missão será atrair as almas

ajudando-as a sair de si

para se unirem a Deus

por um movimento bem simples e amoroso

e a guardá-las

nesse grande silêncio interior

que permite a Deus

 imprimir-se nelas

transformando-as em si

(28 de outubro de 1906.)

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